Às
vezes, meu caminho é abismo! Porque, às vezes, é somente numa queda que se
encontram os elementos necessários para se iniciar uma nova jornada. Sou o
desconhecido e saio para uma queda-livre em mim mesmo; saio da caverna em busca
de novas luzes para assim poder desvelar novos matizes. Sou o Tolo em conquista
do Mundo. Nem que este mundo seja apenas o círculo de mim mesmo! Sou o Tolo, o
Louco; o Coringa e, em mim, há muitas faces. Eu caminho para frente, olhando
para trás, pois sou o passado, sou o futuro e meu olhar é interno, nada mais.
Depois dessa queda, desse voo, caminho como um
saltimbanco... Sou o Mago o qual cata nos grãos de terra, nas gotas da água,
nas brisas de vento, nas faíscas do fogo a energia que me reconectará a mim
mesmo. Possuo todas as possibilidades. Sou o masculino de todos os inícios.
Estou no céu e na terra. Sou a Rosa dos Ventos, enfim sou todas as direções e
nada mais.
Sou polar! Partindo do masculino para o feminino, percorro
meus polos. Sou a virgem. Sou o véu que se rasga... Sou a Sacerdotisa a qual,
na dúvida, intui com toda a sua essência. Sou o silêncio passivo de um novo
saber. Sou o feminino recatado. A sabedoria da intuição. Penetro-me,
invagino-me no meu feminino espiritual e nada mais.
Desenvolvo minha feminilidade e torno-me a própria Mãe
Natureza. Sou a fertilidade da terra sensual em cio. Sou o ventre, o ovo que a
tudo germina. Sou a primavera, porém também sou o inverno, e assim, no gelo,
guardo-me para outro desabrochar em campo dourado que o vento acaricia e
engravida. Sou a Imperatriz do mundo, a floresta da vida e nada mais.
De
volta ao meu masculino, sou o Imperador a procura de novos territórios para
governar. Quero o mundo dominar. Quero impor a rigidez do meu poder. Sou a
matéria, a realização. Sou a ordem sobre a natureza. Organizo, civilizo; sou o
pai, o provedor e nada mais.
Sou o espírito que envolve a matéria. Prendo-me aos dogmas.
Desenvolvo o lado social de mim mesmo. Sou o Sacerdote que abençoa. Educo-me.
Sou a cultura, a tradição. Desenvolvo meus princípios e aprendo a ser leal a
eles. Sou a religiosidade, a sociedade e nada mais.
Estou
sob a flecha de Eros. Sou o livre-arbítrio da escolha. Perco-me na dualidade de
um ser centrífugo, dissipando-me pelo mundo, construindo-me de encruzilhadas.
Agora sou autorresponsável, desenvolvo meu amor-próprio. Duvido, escolho,
decido; aprendendo com as consequências dessas escolhas e nada mais.
Caminho,
corro... Harmonizo minhas dualidades e oposições, dominando-as. Sou o
direcionamento. Sou o herói coroado em sua glória. Percorro qualquer terreno na
direção que domino. Sou o Carro, a Carruagem. Não importa a estrada, sou o
controle sobre a direção e nada mais.
Sou
a balança que julga e a espada que golpeia se assim se fizer necessário. Sou a
Justiça, sou o ajuste das arestas desnecessárias, tenho pratos vazios e neles
tudo se aceita pesar. Tenho uma espada divina e nada mais.
Recluso,
percorro-me e reavalio-me. Caminho devagar, iluminando meus passos. São passos
curtos, mas certeiros no caminho. Encontro uma luz para me guiar. Sou a luz de
mim mesmo e nada mais.
Sou
o destino de raios centrípetos e diâmetros centrífugos. Sou o karma, sou o
sansara, sou a roleta das mudanças. Uma roleta sem apostas, pois não há perdas
nem ganhos, somente giros, transformações... Sou a Roda da Fortuna que muda,
gira, roda, sobe, desce... Sou os ciclos e nada mais.
Nessa
trilha que sigo, uma coragem é exigida de mim: a de domar a matéria com o
espírito, o consciente com o inconsciente, a rudeza com a delicadeza;
aprendendo, assim, a domar meus leões sem braços, nem chicotes. Com minhas
mãos, seguro sua bocarra, sentindo seu hálito quente escorrer por entre meus
dedos. Sou a Força e faço meus leões dormirem na selva da minha alma e nada
mais.
É
pelo sacrifício que vem o renascimento. Às vezes, é preciso pendurar-se de
cabeça para baixo para ver o mundo com outro olhar. Sou o momento da morte. A
agonia. O abandono. Meu céu são grãos de areia. Sou o “padecer no paraíso” do
autossacrifício. Sou o Pendurado, o Enforcado pelo calcanhar e estou no casulo
da borboleta e nada mais.
Sou
a semente que morre para que a planta nasça. Morro para me tornar o próprio
tempo, para mudar de dimensão. Sou o outono em crepúsculo vermelho, soltando as
folhas que adubarão minhas raízes. Apodreço para voltar à vida. A Morte é meu
nome e sou a borboleta em seu primeiro voo e nada mais.
Depois
de morrer o necessário, preciso de uma proteção divina... Preciso de um anjo
que me tempere e que me verta harmoniosamente de um vaso a outro, misturando-me
em rio eterno, enfim conhecendo a medida certa de mim mesmo, encontrando A
Temperança no fluir das águas que há em mim e nada mais.
Contudo
ainda há em mim o desejo das minhas vaidades. Sou o prazer do meu sexo. Eu sou
a sedução do eu, dos meus sentidos e nada mais! Danço acorrentado ao Pan que
guardo em mim... Inebriado pela música e pelo vinho que entorpecem o
consciente, danço vendendo minha alma à carne! Só existe o físico, seus
prazeres, seus sete pecados capitais e nada mais.
Do
céu descem os raios que destroem essa minha prepotência. Minhas torres são
destruídas. Os castelos de Ego, que me afastaram do mundo e do convívio,
tornam-se ruínas. Despenco-me das minhas vaidades, sujando-me com a lama das
minhas coroas aniquiladas e nada mais.
Enlameado,
dispo-me de todos os trajes possíveis e nua, sob as estrelas, sou A Estrela
mais brilhante. Renovo-me de outras esperanças. Despejo-me na terra para
hidratá-la com minhas águas e deságuo-me no rio para me libertar de minhas
hipérboles. Não desisto; decido, pois há uma luz a qual anuncia que o fim da
jornada se aproxima e nada mais.
Contudo
ainda me perco em algumas sombras que resistem... Sou o mistério lunar, um
reflexo do brilho solar. Sou eclipse. Tenho uma luz que ilumina e esconde. Sou
romance e lobisomem. Sou cheia e minguante. Mostro e escondo. Tenho uma
luz-gravidade que em tudo interage. Sou o amor e o medo. Sou um labirinto de
espelhos. Sou a Lua, a luz anfótera que ilude, acende e nada mais.
Depois
de percorrer minhas sombras, sou solar! Sou a estrela máxima e central. Sou
vida. Sou luz. Estou mais perto de mim mesmo e nada mais.
Renasço.
Renovo. Harmonizo o passado que há em mim. Sou o Julgamento das conquistas que
alcancei. Sou renascimento, a transformação de mim mesmo, a ressurreição e nada
mais.
Cheguei
ao Mundo. Sou o nada e sou o tudo. Danço em harmonia com o universo, pois sou
um com o paraíso. Termino, porque outros inícios me aguardam: outros círculos
se interseccionarão a mim. Sou a vesica piscis de mim mesmo e nada mais.
Percorro
os arcos dos caminhos, formando meus ciclos. A vida é um rio! Um rio cíclico.
Um rio de águas, que sempre retornam diferentes, sejam no que carregam, sejam
no seu fluir, sejam em sua matéria. São águas que vêm e voltam sempre água,
porém diferentes. Também sou o vento, sem espaço ou tempo. Sou a luz de um
caleidoscópio, sou sem número, porque percorro todos esses 21 caminhos. Sou o
chão de uma nova estrada. Sou a chama que cataliza um novo início. Sou o início
e o final do círculo. E assim saio para outras jornadas, pois a existência é
uma hidrografia de jornadas simultâneas, com rios principais e afluentes;
perenes e intermitentes que se cruzam, completam-se, tangenciam-se; congelam,
evaporam, condensam seguindo seu curso e nada mais...
Florianópolis,
maio de 2016.
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